Ah, vida sempre morrendo
Ah, moça do Miramar!
[Vinícius de Moraes]
Eu imaginei a Moça do Miramar. Com seus cabelos louros e seus pelinhos azuis, rebrilhantes, brilhando quase que em separado ao corpo já putrefato. O que levou essa moça, a trancar-se em casa num já saber-se próximo a morte e à morte. O que será que escutava a Moça do Miramar? O que será que amava, o que será que queria, o que foi que com ela em confidência à lua desapareceu no mundo sem deixar um rastro qualquer que fosse? Quantos desejos perderam-se inertes no teu cérebro já morto? Quantos amores nunca foram ditos? Quantos aromas se perderam em seu nariz necrosado? Quantas formigas morderam e intoxicaram seu coração tão machucado de vida real que se cansou de viver? Tiraram o viver. Deixaram apenas a matéria, sem força, sem reação, sem alimento. Apenas um corpo pairado à lua, sem motivo, sem por que. Quem moveu a Moça do Miramar a mirar o mar à luz da Lua e ali ficar? Quem impeliu nessa moça o desejo de ver na sua morte o destino mais silencioso? O que ficou pra trás? Ninguém sabe. Ninguém saberá.
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